'Nesta década será decidido o futuro da humanidade', diz climatologista Carlos Nobre sobre desafios da COP26

    Veterano de cúpulas climáticas e um dos maiores especialistas do mundo sobre a Amazônia e o seu impacto no planeta, o climatologista Carlos Nobre diz que a COP26, que começou ontem em Glasgow, na Escócia, tem como desafio conseguir de governantes o compromisso com metas duríssimas, mas necessárias. Copresidente do Painel Científico para a Amazônia e pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), Nobre afirma que a Humanidade tem à frente a década mais desafiadora de sua História.

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    O que podemos esperar da COP26?

    É uma pergunta de US$ 100 milhões. O momento me lembra o da COP-15, em Copenhague, para a qual havia uma imensa expectativa. Porém, só fomos alcançar os resultados esperados na COP-21, em Paris. E isso aconteceu porque houve um trabalho prévio do governo da França.


    Que trabalho?

    Uma intensa negociação prévia com os países. Os líderes, como o presidente americano Barack Obama, chegaram com muita coisa já negociada, prontos para o Acordo de Paris.

    E agora?

    Pelo que se viu até agora, o governo do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, não fez o mesmo trabalho. Tampouco o presidente da COP-26, Alok Sharma, parece estar tendo muito sucesso. No Brasil, ele não foi recebido pelo presidente Jair Bolsonaro em agosto, por exemplo.

    Por que é tão urgente chegar a um acordo substancial de redução de metas nesta COP?

    Porque estamos atrasados. A ciência aponta os riscos há décadas e o último relatório do IPCC é a continuidade disso. Não falamos mais do que pode acontecer, mas do que já ocorre e do que precisamos fazer para tentar impedir que se agrave. E friso que passar de 1,5° C de elevação de temperatura será terrível. Para evitar que isso aconteça, teríamos que reduzir as emissões em 50% até o fim desta década.

    Qual a chance de a COP26 chegar a um acordo neste sentido?

    Parece distante com o que temos na mesa neste momento. Este ano, as emissões de CO2 devem superar as de 2019, ainda que a atividade econômica não tenha se recuperado plenamente e enfrentemos a pandemia. Os números do Brasil de 2021 ainda não saíram, mas devem superar 2020, ano em que o Brasil foi um dos poucos países que registrou aumento de emissões, devido ao desmatamento da Amazônia. Este ano, o desmatamento continua a crescer e o governo ligou as térmicas.

    O que isso significa?

    Que o Brasil está mais distante de cumprir metas do que outros países. Tudo leva a crer que não haverá redução significativa nos dados que devem sair em novembro. O orçamento do Ibama continua baixo. As emissões brasileiras vêm sobretudo do desmatamento. Se o país não reduzir o desmatamento, não importa se legal ou ilegal, não chegará a nada, a meta alguma. O Brasil não tem nada positivo nas mãos em Glasgow, já é superpressionado e isso não vai melhorar.

    E os Estados Unidos?

    Os EUA aumentaram suas emissões no governo de Donald Trump. O presidente Joe Biden chegou politicamente comprometido a cortar emissões. Só que, para levar adiante seus planos, precisa da aprovação do Congresso e não há garantia de que ela virá. Além disso, os EUA, diferentemente da União Europeia, não têm um marco temporal para encerrar a produção de carros movidos a combustíveis fósseis. Destaco que 98% dos carros do planeta são movidos a combustíveis fósseis. A rápida transição para zerar emissões é o maior desafio do mundo.

    E a China?

    Sem a adesão da China será impossível ficar em 1,5° C de aumento da temperatura global, os chineses teriam que antecipar suas metas. Se o presidente chinês, Xi Jinping, não for mesmo a Glasgow, nenhum acordo da COP-26 será satisfatório, será muito ruim para a conferência. Embora a China queira assumir a liderança ambiental, é difícil que isso ocorra sem um comprometimento maior. Ela é, por exemplo, a maior fabricante de carros elétricos do mundo. Mas, por outro lado, continua a construir térmicas a carvão. A única boa notícia é que os chineses anunciaram que não construirão mais essas térmicas fora de seu país.

    Por que frear a elevação da temperatura em 1,5° C é tão importante?

    Essa meta tem que ser perseguida porque faz uma diferença brutal. Fala-se em 2° C como meta possível, e 0,5° C pode parecer pouca coisa. Não é. Um relatório do IPCC de 2018 mostrou que esse 0,5° C é suficiente para eliminar 95% dos recifes corais, com impacto no equilíbrio dos oceanos e nas nossas vidas, mesmo para quem não se importa com corais. Isso é só um exemplo. Esse 0,5° C vai impactar em ocorrência de extremos climáticos. Em todo o sistema terrestre. Por isso, esta década é a mais desafiadora da História da Humanidade. Decidimos nela nosso futuro.

    Que acordo poderá sair da COP-26?

    Talvez a grande expectativa para esta COP seja um acordo para reduzir entre 40% a 50% as emissões até o fim da década. Mas sabemos que as emissões vão crescer até 2023, provavelmente até 2025. Com muito otimismo, poderemos ter um decréscimo a partir de 2026 e, com isso, reduzir as emissões em 50% em relação a 2015. Reduzir 50% em cinco anos é um desafio monstruoso. Prometer reduções até 2050 é fácil, mas está longe de bastar. Será preciso um comprometimento dos líderes que não sabemos se estarão dispostos a dar.

    Por quê?

    É muito mais simples se comprometer com metas distantes. Muitos dos governantes atuais estarão ou esperam estar no poder no período em que metas até 2030 terão que ser cumpridas. Biden, por exemplo, poderá ficar no poder até 2028.

    Se os países apenas cumprirem as metas tal como estão agora, o quanto o planeta vai esquentar?

    Pelo menos 2,7° C. E isso significará mais extremos climáticos, mais fome, miséria e sofrimento.

    O senhor tem trabalhado com o projeto da Amazônia 4.0 de desenvolvimento associado à exploração sustentável da biodiversidade. O quão rentável pode ser a exploração sustentável da floresta?

    Muito rentável. Vou dar um exemplo. Um hectare de sistema agroflorestal rende uma média de US$ 1.000 por ano. Isso representa um rendimento dez vezes maior do que o do gado e cinco vezes superior ao da soja.

    E como está o Amazônia 4.0?

    Apesar da pandemia, temos conseguido avançar. Conseguimos recursos para o primeiro laboratório que será levado a quatro comunidades no Pará. Ele está em construção em São José dos Campos e será usado para produtos de cacau e cupuaçu, com alta agregação de valor.

    Qual a maior urgência da Amazônia?

    Fazer uma moratória a jato para o desmatamento e a degradação em toda a Amazônia. Hoje, 17% dela foram desmatados e outros 17% degradados. É preciso zerar o desmatamento, não importa se legal ou ilegal, até porque o Congresso brasileiro tem legalizado as ilegalidades. A palavra legal passou a não significar mais nada por isso. Como 60% da Amazônia estão no Brasil, ele deveria liderar. Mas para isso é preciso de uma política mais enérgica para a região.

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