Você sabe como os índios bebiam jurema?

    Você sabe como os índios bebiam jurema?


    Para quem não sabe, jurema é um vegetal comum nos sertões do Nordeste, em regra, são como arbustos, mas, no meio das caatingas, não raro, observam-se pés de jurema com porte de verdadeiras árvores. O sertanejo a divide em dois tipos, a jurema preta e a jurema branca. A jurema preta tem caule escuro e sua brasa esquenta tanto que racha até panela de barro, dizem os nossos caboclos. Já a jurema branca tem coloração mais clara e a madeira é mais frágil.

    O comum entre elas só conhece quem já se prendeu em suas "toiceiras". É espinho "até umas horas"! Era árvore sagrada para os índios, pois parece ter funçâo antinflamatória e psicodélica. Vários povos indígenas faziam uso dessa propriedade alucinógena da jurema. Na Pedra do Reino, próxima à Chapada do Araripe, no ano de 1838, índios Humã, Xocó e Quipipã ainda ingeriam beberagem de jurema com manacá nos seus rituais e, assim, tinham visões de um reino encantado, este, já sendo uma mistura da tradição tapuia com o universo cristão trazido pelos padres missionários. Apesar da "estória" de que os índios foram extintos, dizimados, mortos, etc., muitas fontes indicam que eles permaneceram latentes e fazendo esse uso da jurema, o que deixava os padres em polvorosa. Vou pedir licenca para citar um documento interessante sobre o assunto, encontrado pelo amigo paraibano Luciano Canuto. Tal documento é um auto processual do Tribunal da Inquisição, datado de 1743, no qual um padre capuchinho denunciava alguns "mestres da jurema" bem como os seus discípulos, no sertão do Piancó (ao tempo, localizado entre as capitanias da Paraíba e Rio Grande do Norte). A denuncia foi formalizada pelo padre José Cavaltam, italiano encarregado da Missão dos Corema. Reza o dito sacerdote que os mestres da jurema, seus discípulos e crianças faziam uso da bebida, sendo que outros índios (Icós, Panatis e Pegas) possuíam os mesmo hábito. Mas existiam regras para sorver o líquido. Cada participante deveria possuir um maracá, isto é, um instrumento musical feito de cabaço com pedras em seu interior e sustentado por um cabo. Ressalte-se que ninguém poderia beber jurema sem, antes, ser curado, ou seja, os novos integrantes deveriam ser defumados sobre um buraco no qual se colocava fogo em raízes. Acreditava-se que quem usasse a jurema sem, primeiramente, ser curado, viria a falecer. Também, aqueles que não fossem curados e viessem a ter relação sexual com mulheres usuárias da jurema, emagraceriam até morrer. O padre denunciante acrescentou que, durante o transe da jurema, todos ficavam deitados no chão, e só se levantavam quando o mestre tocava um maracá e cantava uma cantiga que o sacerdote cristão não soube reproduzir. Durante o ritual da jurema, o "demônio" aparecia em forma de um bode. A cobra de veado e outras serpentes também eram vistas nessa celebração. Alguns relatavam ter vislumbrado coisas bonitas como pinturas, igrejas, palácios, o "céu aberto", etc . Outros afirmavam terem se deparado com pessoas já falecidas. Segundo o denunciante, a consequência do uso da jurema era o pecado do sexto mandamento, isto é, fornicar. Tudo isso me fez lembrar uma história contada por minha avó Terezinha, a qual veio residir com o esposo na Vila Alta quando lá só tinha mato, meados do século XX. O vizinho, segundo ela, era um feiticeiro que realizava rituais cantando "O chapéu é de palha, o penacho é de pena de ema, eu aclamo agora as forças da jurema", momento em que ela começava a passar mal. São todos elementos genuinamente indígenas, em pleno seculo XX, mas essa é uma outra história (Texto: Heitor Feitosa Macedo/ Imagem: Torre do Tombo).

    © 2018 RM77.DESIGN. All Rights Reserved. Designed rm77.com.br
    Free Joomla! templates by AgeThemes