O último grande rastejador do sertão dos Inhamuns

     Foto: França e Darismar - filhas de Chaga Valadão-, imagem cedida por Paulo Solano

    O último grande rastejador do sertão dos Inhamuns!
    Pra você que não sabe o que é um "rastejador" do sertão, explico! Não vá pensando que se trata de uma pessoa que se movimenta com o tórax encostado no chão, feito cobra. Apesar de a palavra "rastejar" levar a essa equivocada ideia, o que os rastejadores fazem é "rastrear".

    Seja bicho ou gente, eles conseguem encontrar pistas que levam ao paradeiro dos moventes e semoventes. Os "rastejados" podem estar em cima de um lajedo ou no oco de uma aroeira, que sua localização é, quase sempre, descoberta. O caminho é tão importante quanto à chegada. Diversas fontes apontam que os índios detinham esse conhecimento, característica de um povo ligado mais intimamente à natureza e dotados de grande capacidade de observação. Ao lado disso, é sabido que os povos originários da América possuíam sentidos mais aguçados, tal qual os atuais sertanejos, pois estes sabem distinguir odores dos animais silvetres; ouvir chocalhos e rodagem de carros a enormes distâncias. O Chaga Valadão é considerado pela memória atual como o último grande rastejador do sertão cearense dos Inhamuns. De acordo com a oralidade dessa família, eles descendem dos índios que viviam à margem do rio de Jucá. Jucá é nome indígena (equivale a "matar") que batiza um vegetal que produz o lenho mais resistente daqueles biomas, predileto na fabricação dos cacetes (porretes) de jucá. Existia um grupo numeroso deste povo vagando entre os campos dos Inhamuns e mata atlântica do sertão dos Cariris Novos, não dando trégua aos seus inimigos. Há quem diga que os Jucá são os mesmos índios Inhamuns. Eu, particularmente, acredito que eles também sejam aparentados dos Jenipapos, os quais, em 1724, depois de darem combate encrniçado aos Montes e Mendes Lobato, no Sítio Caiçara (em Missão Velha) seguiram os rastros dos sobreviventes e os assassinaram no rio Salgado, enquanto lavavam as feridas. Sei que se internaram na divisa do sertão dos Inhamuns com o Piauí, fugindo das vinganças desses seus poderosos inimigos. O fato é que, desde essa época, tais índios firmaram alianças guerreiras com brancos sesmeiros. Parece que isso já atravessa três séculos. Chaga nasceu no sítio Flamengo, próximo à lagoa dos Caboclo Brabo. Flamengo não se refere a um dos times cariocas de futebol, mas era termo que os antigos portugueses usavam para fazer menção aos holandeses, que, depois de serem expulsos dos NE do Brasil, em 1654, deixaram seus aliados índios no campo de batalha, sendo que estes, retirando-se para o sertão, sempre mantiveram na memória o saudosismo da amizade flamenga. Já "caboclo" é palavra tupí e quer dizer "gente do mato", ou melhor, os índios que haviam entrado em contato cultural com os europeus. No tempo em que o Estado não era capaz de punir os crimes no dilatado sertão, as vinganças eram praticadas a torto e a direito. Desde a década de 1950, são conhecidas algumas das proezas de Chaga Valdão, o qual, várias vezes, rastejou léguas para encontrar homicidas, ladrões, foragidos da polícia e até crianças perdidas no mato. Seu "patrão" era José Solano e, com a autorização deste, até mesmo o próprio Estado se utilizou dos predicados de Chaga para prender delinquentes. Era homem desassombrado, que não aceitava desfeita, foi homem do seu tempo e ainda o é da nossa história. Chaga e seu povo merecem um resgate histórico, para que a lenda não seja esquecida (Texto: Heitor Feitosa Macêdo/ Foto: França e Darismar - filhas de Chaga Valadão-, imagem cedida por Paulo Solano).

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