Opinião Jornal O POVO

    Jornal O POVO         02/12/19

    Escola-denúncia

                                                       André Haguette

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                A escola,da educação infantil à universidade, cada degrau no seu respectivo ritmo e sua devida pedagogia,há de ser um lugar acolhedor, generoso, de confraternidade, onde, de modo disciplinado e organizado, se aprende a decifrar o outro, o mundo e a si mesmo. Um lugar onde alunos, professores, funcionários e pais aperfeiçoam qualidades humanas fundamentais:  conhecimento,equilíbrio emocional e afetivo, convívio político e ético. Na feliz e internacionalmente aceita conceituação de Jacques Delors, a escola se constrói e reconstrói constantemente em torno de quatro pilares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros, aprender a ser, aprendizagens complementares e integrados que exigem uma cultura e um ambiente escolares de respeito, disciplina, liberdade e confiança entre seus diferentes agentes e as famílias. Por essas características, educação se distingue de adestramento e de disciplinamento. Educar é propor um convite ao questionamento, à descoberta,à solidariedade, à liberdade, à responsabilidade e, logo, à paz cosmopolita. 

                Mas não é com esse modelo escolar que nos ameaçam os dois intrépidos apóstolos da Árvore de Bem e do Mal, os ministros Damares Alves e Abraham Weintraub; querem impor, de goela abaixo, uma “Central de Denúncia” para incentivar alunos a denunciar professores por atividades ou conteúdosque “atentem contra a moral, a religião e a ética da família”.Essa  “nova” proposta de escola-denúncia reascende o velhacomodelo fascista e ditatorial da desconfiança, do medo, da censura, do ódio, enfim de tudo que é contrário à formação de uma consciência individual autônoma e solidária. Esses dois cruzados da moral e dos bons costumes,que, arrogantes, declaram “possuir o conceito do que é bom”, pretendem  impor suas próprias definições da moral, da religião e da ética da família, instituindo-se juízes finais e conduzindo a escola a ser um ambiente policialesco de desconfiança mútua, incapaz deresolver internamente, pelo diálogo e pela compreensão mútua, seus eventuais conflitos, ameaçada, se  da rede pública, de retaliação com cortes de verbas. Esses ministros afrontamo Estado laico e a Constituição que é taxativa ao garantir as liberdades de manifestação do pensamento, de consciência, de expressão, da atividade intelectual e de cátedra.

                Como disse com pertinência Priscila Cruz do movimento Todos pela Educação, em uma sociedade plural, “os alunos precisam estar expostos a opiniões diferentes” durante sua formação Dessa forma, todos os assuntos que transitam na sociedade e na ciência, que seja escravidão, ditadura, desigualdade, gênero, religião, gravidez na adolescência,  aborto, drogas, cotas, violência policial, teoria da evolução etc.precisam ser expostos, compreendidos, e discutidos “sinestudio et ira” (sem ódio e sem preconceito) num ambiente escolar dialógico. A escola-denúncia não passa de uma fraude autoritária que inibeo convívio feliz e participativo numa sociedade irrequieta, divergente e em constante transição; uma sociedade cada vez mais “líquida”, na bela metáfora de Zygmunt Bauman.

               

     

               

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