Caatinga e Semiárido

     O ecossistema da Caatinga cobre uma área de 844,5 mil quilômetros quadrados, equivalente a 11% do território brasileiro. Para se ter uma ideia, o Estado de São Paulo tem 242,2 mil quilômetros quadrados, menos de um quarto do tamanho da Caatinga. A França, o maior país da Europa Ocidental, tem 547 mil quilômetros quadrados, o que equivale a dois terços do tamanho da Caatinga. Trata-se, pois, de uma área enorme, totalmente brasileira, com vegetação endêmica, isto é, que só existe lá.

     

    Antonio Rocha Magalhães
    Economista e ex-secretário de Planejamento do Ceará
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    Essa área da Caatinga se expande pela maior parte dos Estados do Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia. Cobre também o Norte de Estado de Minas Gerais. A Caatinga está presente, portanto, em nove estados brasileiros. É preciso não confundir Caatinga com Semiárido. Enquanto Caatinga é um conceito natural, um ecossistema, o Semiárido brasileiro é um conceito político, delimitado legalmente por meio de Portaria do Governo (embora também exista definição natural para o clima do Semiárido). Por isso, o Semiárido tem sido redefinido ao longo do tempo, para atender a pressões políticas locais e regionais.
    O Semiárido, entretanto, envolve todo o território da Caatinga e mais aqueles municípios que atendem aos critérios políticos definidos pelo Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) e pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). De qualquer forma, existe muita coincidência territorial entre Caatinga e Semiárido.

     

    O Ministério do Meio Ambiente (MMA) utiliza também o conceito de Áreas Suscetíveis à Desertificação (ASD), que incluem todo o Semiárido e também os municípios que lhe são limítrofes. Por isso, as ASD cobrem uma área superior à do Semiárido (ver o livro do CGEE e Funceme denominado “Desertificação, Degradação de Terras e Secas no Brasil”, publicado em 2016. Esse livro pode ser baixado gratuitamente na página do CGEE na internet.

    A Caatinga é definida pelo seu clima, pelos seus solos e pela disponibilidade de água. Na Caatinga, assim como no Semiárido, chove pouco, os solos são rasos e é escassa a disponibilidade de água. A vegetação, incluindo a rasteira, os arbustos e as árvores, se desenvolveu ao longo de muitos milhares de anos, acostumando-se a crescer durante os poucos meses de chuva e a poupar água durante os meses em que não chove. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, cerca de metade da Caatinga já foi desmatada, para dar lugar a campos desertificados, cidades, obras de infraestrutura, áreas agrícolas e vegetações secundárias.

    Na Caatinga do Nordeste, chove quatro meses por ano. Isto quer dizer que durante oito meses não há chuva, e as árvores, para continuarem vivas, precisam nutrir-se de reservas de água que acumularam durante as chuvas, ou então fingir-se de mortas, deixando cair as folhas e transformando-se em galhos secos. Por isso se chama de vegetação decídua, isto é, cujas folhas caem todo o ano. Quando as chuvas retornam, geralmente em janeiro, as árvores ressuscitam, novas folhas crescem e o verde explode em toda a paisagem. É o milagre da Caatinga.

    Se o viajante passa pela Caatinga na época de seca e é impactado pelo seu aspecto triste, seco, sem vida, não pode imaginar que aquela mesma paisagem, dentro de alguns meses, pode ficar exuberante de vida.

    A seca é o flagelo da Caatinga, das pessoas que aí vivem e dos animais. Nos tempos históricos, quando ainda não havia sido ocupado o território por colonizadores portugueses, os índios costumavam migrar na época de secas severas e chegar até o litoral, em busca de alimentos e água. Com a continuação, ao se implantarem atividades econômicas, as secas causaram muitas perdas na produção, reduzindo drasticamente os alimentos. Com isso, deixaram um rastro de desnutrição e mortes, tanto de pessoas como de gado e de animais silvestres.

    Água, tão abundante quando está chovendo, falta quando a chuva acaba. As estratégias dos agricultores, de cavar cacimbas nos leitos de rios ou de construir pequenos açudes, não funcionam em períodos de seca severa. É quando ocorrem as grandes migrações, que no passado deixavam mortos ao lado das estradas e ameaçavam as poucas áreas urbanas.

    Os grandes açudes construídos pelo Departamento Nacional de Obras contra as Secas (Dnocs) ou pelos governos estaduais, bem como aqueles construídos em cooperação entre o Governo e o Dnocs, ajudaram a afastar a falta de água e a permitir o crescimento de uma civilização na Caatinga. Essa civilização é permanentemente ameaçada pela pobreza e pelas secas plurianuais severas, que fazem secar mesmo os maiores açudes.

    Esse é o ambiente do interior do Nordeste, de onde vêm as grandes famílias, inclusive no Estado do Ceará. É o ambiente onde existem, ou existiam, as grandes fazendas de criação de gado, combinadas com a plantação do algodão, do feijão, do milho e da mandioca. Onde se passaram histórias de brigas de família, de conflitos políticos, de coronelismo e paternalismo, de sucesso de poucos e de insucesso de muitos, de muita religiosidade, de criatividade para enfrentar os males das secas que periodicamente afetam a região.

    Onde, pela inclemência dos elementos, os níveis de produtividade se mantêm baixos e são apenas suficientes para sustentar uma civilização pobre, onde a riqueza de alguns corresponde à pobreza de muitos. Onde o amor pela terra faz parte de cada pessoa e os que emigram sonham sempre que um dia irão voltar. Onde, no entanto, a busca pela sobrevivência e pela superação tem produzido exemplos de vencedores, que se destacaram em vários campos das atividades humanas.

     

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